esquece, garota,

essa bobiça de amar.

põe tua vaidade pra funcionar,

e compre alguns cigarros baratos,

para trocar por carona no seu caminho de volta.

você precisa voltar.

o velho mesmo tom no mesmo sofá velho.

Ele rasga a primeira folha do caderno, pacientemente, enquanto arruma o óculos gasto de quem já tem os olhos cansados de tanta merda que já viu até chegar ali. Brinca com a caneta entre os dedos e volta a rabiscar no canto direito da folha ao perguntar em voz alta para o rapaz deitado no sofá rasgado, do outro lado da sala.

– Então, Tom. O que o incomoda?

– Vejamos… A vida – Tom responde acedendo outro cigarro e deitando desconfortavelmente no sofá, tentando manter uma pose de mal amado que não lhe pertencia – Essa de vida do caralho. Isso não incomoda você, também, Carlos?

– Não muito…

– Deveria. Sabe, ou a vida lhe incomoda, ou você não está vivo. É a regra.

– Duvido muito que eu esteja vivo… – Carlos repete para si em voz baixa – Mas seja mais específico, Tom. Hoje. O que lhe incomoda hoje?

– Hoje… Hoje… Hoje me incomoda a falta de resposta. Me incomoda a insônia da ansiedade de um sonho que nem existiu, me incomoda a falta de modéstia de pessoas esquisitas e me incomoda o silêncio dos que ainda pensam. Ela. Ela me incomoda.

– Hmm… Quem é ela?

– Não é ela! – Tom fala alto, levantando-se e brandindo os punhos contra o ar como em qualquer clichê shakesperiano – São elas! Ela é elas! Todas elas! A menina que era fantástica e tinha um grande sorriso e hoje só me lembra cheiro de erva. A outra garota que se mantinha magicamente em minha mente como um surto de saudade e hoje não me altera nem o caminho. São todas elas, com grandes vidas e idéias e sem bosta nenhuma a acrescentar a ninguém, mas que continuam aí, me torrando a porra da vida..

Carlos se ajeita novamente na cadeira enquanto observa Tom andar pelo cômodo atrás de mais cigarros, colocando mais cerveja preta no copo sujo. Suspira, olhando o relógio, e volta o rosto claramente entediado para o garoto em sua frente com pose hipster e sonhos vagos.

– Tom, você já pensou que nenhuma delas é isso?

– Como assim? Diabos, Carlos, como assim?!

– Nenhuma delas é isso que você descreveu. Elas, todas elas, são apenas garotas simples sem nenhuma coisa interessante a oferecer, a não ser a própria vontade de ser e estar e toda essa baboseira que você costuma ouvir por aí. O resto, essa desilusão de armário, foi você que criou. O problema está com você.

Tom parou de se mexer como um alucinado em transe pelo quarto, suspirou fundo e olhou rindo para o analista imaginário que criara.

– Você quer dizer que o problema da minha vida inteira sou eu, é isso?

Carlos, já não mais presente na cadeira no canto da sala e agora inteiramente na mente de Tom, confirma com a cabeça. Tom se senta calmamente, tomando mais um gole de cerveja, e esbraveja rindo.

– Ora porra, mas isso eu já sabia!

Acende outro cigarro com o cigarro que está em sua boca e joga o velho vício para o outro lado do cômodo. Observa, vazio, que onde antes Carlos estava, agora apenas há uma bituca queimando no chão velho.

– Porém, conte-me mais. – suspira, Tom, solitário enfim, outra vez.

dois pássaros estúpidos

Todo final de domingo eu volto para o lugar onde a gente se conheceu, como se em um surto qualquer você pudesse aparecer e salvar minha semana. Salvar minha vida. Em toda a risada sincera procuro seu olhar de desdenho com aquela piscada de “vam’bora que essa gente é chata demais e eu tenho uma surpresa pra você” que só eu conseguia entender e te seguir rumo rua fora, rumo Rio adentro.

E eu fecho e abro a porta, vez a vez, dia a dia, esperando você estar ali parada de pijamas, perguntando o que diabos eu estou fazendo que não do seu lado na cama ou em qualquer lugar pra lá da saudade e bem longe dos dramas deixados em guardanapos de bar.

Tento te encaixar nesses olhos claros que acho por aí, mas me voltam respostas desconexas e eu já cansei de interpretar desejos que não são meus. Eu gosto é dos seus sonhos e se não for para ler os seus desejos, então eu dispenso. Obrigado. Sei que a gente combinou de deixar tudo pelos cantos, levemente arranjado como um romance de contos sem fadas, mas a saudade às vezes aperta e me sobra conversa de tapete com vinhos na caneca e pretzel velho.

Eu queria lhe fazer um grande texto, do tamanho das histórias que eu vou contar para os nossos filhos no sofá. Mas hoje não. Hoje, eu só vou ligar. E você, por favor, venha. Não é mais domingo, eu sei, mas já cansei de esperar nesse turbilhão de eufemismos sem sentido.

Só venha.

Att, Tom.

Attraversiamo

Existe uma época em que você não vai mais conseguir descrever quem é, e no meio dos clichês e dos amigos pré-moldados, você se pergunta alucinadamente onde está a pessoa que você conhecia.

Não há mais amores. Não há mais cadernos preenchidos avidamente. Não há mais talento.

Quando esse dia chega, acompanhado de agosto, você começa a olhar quem você foi: louco beatnik, apaixonado por sotaques e covinhas e inocentemente crente em toda forma humana de vida. Um aventureiro, um profeta, um poeta. Você nunca foi nada disso. Você não é nada disso. Talvez seja preciso olhar para trás, em uma época limpa de influências, para descobrir quem você se tornou – por baixo das regras do mercado.

Será que agora você faz parte do sistema ou o sistema é você?

A verdade, é que somos o que acreditamos. E eu acredito no Tom. Eu acredito em Caio e também em Bukowski. Eu acredito em Harry e eu acredito no Supertramp. Eu acredito em Moriarty, sobretudo, eu acredito em Moriarty.

Do lado B de londres ao Velho Moriarty que uma vez Sal se permitiu escrever; não importa qual seja a mudança que aconteça, desde que ela exista. Um brinde ao comodismo acomodado dos que se acomodaram e a lei máxima que impera: do not sink.

Era uma vez nas entrelinhas…

Eu vou fazer um livro de tudo que eu devia lhe dizer e não digo. Sabe, de como você fica linda embaixo da chuva me xingando por ter errado a rua do restaurante e de como aquele seu pijama de criança te deixa incrível dormindo do meu lado. Coisas simples, como a vez em que estávamos com os seus pais, e eles fizeram aqueles comentários sobre artes, artistas, escritores e toda essa cambada de inúteis alcoólicos e você pôs sua mão por debaixo da mesa, apertando a minha mão, me fazendo sentir feliz por ser da turma desses mal-acabados vagabundos. Tantas vezes voltamos para casa em silêncio, depois de algum desentendimento, e eu devia ter te parado bem no meio do cruzamento e gritado: “escute aqui, mulher: se você não sabe, é você que eu amo, e se ainda não está claro, é com você que eu irei casar e dividir meus cigarros pelo resto da vida”. Escutou?

Alguns capítulos desse livro vão ser só de pequenas frases que eu devia ter colocado no meio dos nossos diálogos, no lugar daqueles eufenismos bestas e equivocados. Como a vez que você saiu do elevador com seu vestido branco de detalhes levemente dourados, levantou a cabeça com seu cabelo molhado e sorriso de sábado, e em vez de “belo vestido” vou escrever “como você consegue ser a mulher mais linda do mundo todos os dias?”. Irei trocar aquelas discussões noturnas por um simples “me desculpe, foi ciúmes” e colocar mais mensagens na sua caixa de entrada, com “bom dia, quais os seus planos para hoje, além de me apaixonar?”.

Vou reservar um capítulo final também, só para o dia que você saiu. Para o dia que parou de me ligar e que eu te ligar parou de fazer sentido. Nesse capítulo, versos como “me devolve aquele casaco?” serão substituidas por “me devolve meus dias?” ou “me devolve minha paz?”. Aquele dia, em que eu deixei um recado com sua mãe para você passar aqui em casa e pegar as coisas da sua cachorra enquanto eu não estivesse, eu trocaria por “eu não vou estar lá, mas me procure mesmo assim. Me procure na rua, embaixo da chuva, esperando você vir aqui me encher o saco e tal… mas não deixe de me procurar.”

E no dia que marcamos aquele encontro casual de bons amigos, pelos bons tempos, eu vou deixar outro capítulo reservado, só para falar sobre o meu medo de você ter estado em outros corpos e provado outros perfumes, testando novas trilhas sonoras por aí. Mas tudo bem, a vida é assim. Eu direi também como meu estômago fez o favor de vir parar no meu peito, e o coração se abrigar na minha garganta, não me deixando te agradecer por ter me roubado o beijo que a noite toda eu planejei lhe dar.

Bem na hora do tchau, quando você abriu a porta de casa, meio bêbada, e olhou para trás – para mim, só para mim – de novo com seu sorriso de sábado desenhado com covinhas, eu irei mudar o “foi uma noite ótima” por um “você é a pessoa da minha vida. você me salvou de uma existência medíocre e cansativa, e eu vou tentar mudar o seu mundo todos os dias, se você me permite. agora vá dormir, e me deixe continuar sonhando com você pelo resto da noite”. Em alto e bom som.

E se o livro ficar sem final e o texto sem desfecho, por favor não venha me culpar pela falta de talento. É simplesmente o efeito que sua imagem faz em mim. Fico assim, tão idiota, que tem coisas que eu não consigo nem escrever, pensando em você… E se você não gostar disso, pede pro meu coração te ligar um dia desses e se explicar, ué. Se ele tiver uma resposta racional, cuidado, ele estará mentindo.

Tom.

Em algum dia, de algum mês, de 2006.

– Promete sentir minha falta?

– Eu não faço promessas, você sabe.

– Promete, Tom…

– Eu vou. Todo dia. Todo o dia, até você voltar.

– E se eu não voltar?

– Então eu viverei dessa saudade por todos os dias que ainda me sobrarem, acreditando que assim poderei ficar mais perto de você.

Meio Hank, meio Bukowski, meio Tom.

E nessa altura do campeonato ela já estava me mandando tomar no cu e a gente ia saindo do bar brigado e se batendo pelo meio das pessoas, mas ela era assim! Nós éramos assim! Não combinávamos em porra nenhuma, como podia ser diferente?! Ela condenava meu jeito de beber de manhã, de meio dia e de madrugada – e eu condenava a hipocrisia dela, que me acompanhava em cada trago de vodka. Ela vinha pra perto de mim esbanjando narcisismo nos seus discursos freudianos, e eu pouco me fudendo pra aquela pira existencialista, dizendo que todos iam morrer sozinhos e pronto, disfarçando inutilmente meu desejo que ela nunca parasse de falar. E ela não parava mesmo, ficava lá, gritando comigo, o dia inteiro. Botando defeito nas minhas meias, no meu cabelo, nos meus livros não-acabados e nos já vendidos. Ela vinha perto de mim, escarrava na boca mesmo, nos meus sonhos, não queria nem saber. E depois pegava meus pedaços no chão e me montava, com todo o cuidado no mundo, no homem que eu sempre quis ser. E a gente ia lá, se amar naquele quarto com quadros  de filmes pendurados, se auto-destruindo em posições diferentes, por várias horas seguidas, em vários meses. Um química filha da puta, sabe? Uma vontade insana de querer viver e não querer, ao mesmo tempo. De querer estar junto e não poder, de se fuder pelas ruas da cidades, bêbados, juntos. 

Até que acabou. Ela se foi.

E hoje em dia eu me fodo sozinho pelas ruas. Sentindo uma falta egoísta dela, de ter aquele corpo do lado da minha alma atormentada pelas tantas merdas que eu já fiz. Mas o que se pode fazer? Já foi, não volta. É assim que a história termina.

Ponto, fim.