Tardes, tardes, tardes…

Me ensinaram a sempre ficar calada, a não dizer o que eu pensava ou o que eu sentia. Me ensinaram que era tudo errado, esse negócio de amor. Que meu amor era meio que um amor virado, e amando assim, nada podia ser normal. Me ensinaram que mentir sobre si mesmo era uma boa saída, e se nao havia nada a ser dito, devia-se preencher o silêncio com sorrisos vagos. Me ensinaram tanta besteira pela estrada, que agora fico aqui, escondendo cada vírgula e selecionando cada palavra. Tenho medo de me expressar demais e deixar alguma verdade dançar por aí, exposta aos olhos de quem eu me importo. Mencionar aquele olhar, aquele estranho cheiro numa peça de roupa perdida, aquela falta. Há tanta coisa a ser dita e tão pouco tempo para se dizer, que deixamos escapar pelos corredores a única chance que tínhamos de sermos sinceros. E por mais que eu queira voltar no tempo e mudar, e melhorar, e me expressar como um ser humano normal, percebo hoje que é impossível. Que eu sou assim, estranha – já não lhe disse isso? – e que todos que ainda permanecem ao meu lado vão sofrer os efeitos desse sentimentalismo paradoxal.

É tudo intenso, tão intenso, que eu já não sei mais o que é real.

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