O que você sabe de doação?

Pegue todas as suas coisas antigas e venda-as. Se não puder vende-las, doe-as. Alguém certamente estará precisando mais do seu passado do que você. Tire das caixas aquelas frases engasgadas e jogue-as por alguma rua qualquer, e não ouse nunca mais resgatá-las! Abra seu armário e procure pelos sonhos engavetados, deixados para depois. Tire a poeira deles e preserve apenas os que ainda conseguirem lhe colocar um sorriso no rosto. Ligue o som. Faça mais: aprecie o som. Se não lhe trouxer boas lembranças, pegue esses tons gastos e os solte pela janela, junto aos pássaros. Muitos ouvidos estão órfãos das palavras que você usou para sobreviver. Eu sei, haverá saudade. Mas tire essa da mochila também e resolva encará-la. Frente a frente. Depois, enrole nos papéis rasgados que você tem amontoado do lado da cama e coloque-a de vez no lixo. Aproveite, e chame o vizinho: pergunte se ele iria gostar de alguns perfumes antigos. Alerte-o das lembranças que podem vir junto, nem todas são felizes… De qualquer forma, ele saberá que vale o risco. Troque os sapatos amassados por pulos mais altos, e o óculos quebrado por diferentes pontos de vista. Tire os fones de ouvido e divida-os por um pouco de experiência alheia. Dos seus avós, de preferência. Tire as cartas da sua cabeça e distribua pelas ruas. Tire os sorrisos poupados e jogue um bocado deles para cada desgraçado egoísta que passar por você – irá fazer bem para os dois. Filmes, livros, desculpas, telefonemas, mensagens, fotografias. Incendeie tudo. Queime cada parte de você e deixa a mostra por aí, para que todos possam ver. Tocar. Acreditar.

Mas o coração não. Esse deixe quietinho, guardado nessa pequena caixa de mentiras que você o tem preservado. Algumas coisas não devem ser tiradas do lugar, porque provavelmente, nunca mais poderiam voltar.

Era uma vez nas entrelinhas…

Eu vou fazer um livro de tudo que eu devia lhe dizer e não digo. Sabe, de como você fica linda embaixo da chuva me xingando por ter errado a rua do restaurante e de como aquele seu pijama de criança te deixa incrível dormindo do meu lado. Coisas simples, como a vez em que estávamos com os seus pais, e eles fizeram aqueles comentários sobre artes, artistas, escritores e toda essa cambada de inúteis alcoólicos e você pôs sua mão por debaixo da mesa, apertando a minha mão, me fazendo sentir feliz por ser da turma desses mal-acabados vagabundos. Tantas vezes voltamos para casa em silêncio, depois de algum desentendimento, e eu devia ter te parado bem no meio do cruzamento e gritado: “escute aqui, mulher: se você não sabe, é você que eu amo, e se ainda não está claro, é com você que eu irei casar e dividir meus cigarros pelo resto da vida”. Escutou?

Alguns capítulos desse livro vão ser só de pequenas frases que eu devia ter colocado no meio dos nossos diálogos, no lugar daqueles eufenismos bestas e equivocados. Como a vez que você saiu do elevador com seu vestido branco de detalhes levemente dourados, levantou a cabeça com seu cabelo molhado e sorriso de sábado, e em vez de “belo vestido” vou escrever “como você consegue ser a mulher mais linda do mundo todos os dias?”. Irei trocar aquelas discussões noturnas por um simples “me desculpe, foi ciúmes” e colocar mais mensagens na sua caixa de entrada, com “bom dia, quais os seus planos para hoje, além de me apaixonar?”.

Vou reservar um capítulo final também, só para o dia que você saiu. Para o dia que parou de me ligar e que eu te ligar parou de fazer sentido. Nesse capítulo, versos como “me devolve aquele casaco?” serão substituidas por “me devolve meus dias?” ou “me devolve minha paz?”. Aquele dia, em que eu deixei um recado com sua mãe para você passar aqui em casa e pegar as coisas da sua cachorra enquanto eu não estivesse, eu trocaria por “eu não vou estar lá, mas me procure mesmo assim. Me procure na rua, embaixo da chuva, esperando você vir aqui me encher o saco e tal… mas não deixe de me procurar.”

E no dia que marcamos aquele encontro casual de bons amigos, pelos bons tempos, eu vou deixar outro capítulo reservado, só para falar sobre o meu medo de você ter estado em outros corpos e provado outros perfumes, testando novas trilhas sonoras por aí. Mas tudo bem, a vida é assim. Eu direi também como meu estômago fez o favor de vir parar no meu peito, e o coração se abrigar na minha garganta, não me deixando te agradecer por ter me roubado o beijo que a noite toda eu planejei lhe dar.

Bem na hora do tchau, quando você abriu a porta de casa, meio bêbada, e olhou para trás – para mim, só para mim – de novo com seu sorriso de sábado desenhado com covinhas, eu irei mudar o “foi uma noite ótima” por um “você é a pessoa da minha vida. você me salvou de uma existência medíocre e cansativa, e eu vou tentar mudar o seu mundo todos os dias, se você me permite. agora vá dormir, e me deixe continuar sonhando com você pelo resto da noite”. Em alto e bom som.

E se o livro ficar sem final e o texto sem desfecho, por favor não venha me culpar pela falta de talento. É simplesmente o efeito que sua imagem faz em mim. Fico assim, tão idiota, que tem coisas que eu não consigo nem escrever, pensando em você… E se você não gostar disso, pede pro meu coração te ligar um dia desses e se explicar, ué. Se ele tiver uma resposta racional, cuidado, ele estará mentindo.

Tom.