Era uma vez nas entrelinhas…

Eu vou fazer um livro de tudo que eu devia lhe dizer e não digo. Sabe, de como você fica linda embaixo da chuva me xingando por ter errado a rua do restaurante e de como aquele seu pijama de criança te deixa incrível dormindo do meu lado. Coisas simples, como a vez em que estávamos com os seus pais, e eles fizeram aqueles comentários sobre artes, artistas, escritores e toda essa cambada de inúteis alcoólicos e você pôs sua mão por debaixo da mesa, apertando a minha mão, me fazendo sentir feliz por ser da turma desses mal-acabados vagabundos. Tantas vezes voltamos para casa em silêncio, depois de algum desentendimento, e eu devia ter te parado bem no meio do cruzamento e gritado: “escute aqui, mulher: se você não sabe, é você que eu amo, e se ainda não está claro, é com você que eu irei casar e dividir meus cigarros pelo resto da vida”. Escutou?

Alguns capítulos desse livro vão ser só de pequenas frases que eu devia ter colocado no meio dos nossos diálogos, no lugar daqueles eufenismos bestas e equivocados. Como a vez que você saiu do elevador com seu vestido branco de detalhes levemente dourados, levantou a cabeça com seu cabelo molhado e sorriso de sábado, e em vez de “belo vestido” vou escrever “como você consegue ser a mulher mais linda do mundo todos os dias?”. Irei trocar aquelas discussões noturnas por um simples “me desculpe, foi ciúmes” e colocar mais mensagens na sua caixa de entrada, com “bom dia, quais os seus planos para hoje, além de me apaixonar?”.

Vou reservar um capítulo final também, só para o dia que você saiu. Para o dia que parou de me ligar e que eu te ligar parou de fazer sentido. Nesse capítulo, versos como “me devolve aquele casaco?” serão substituidas por “me devolve meus dias?” ou “me devolve minha paz?”. Aquele dia, em que eu deixei um recado com sua mãe para você passar aqui em casa e pegar as coisas da sua cachorra enquanto eu não estivesse, eu trocaria por “eu não vou estar lá, mas me procure mesmo assim. Me procure na rua, embaixo da chuva, esperando você vir aqui me encher o saco e tal… mas não deixe de me procurar.”

E no dia que marcamos aquele encontro casual de bons amigos, pelos bons tempos, eu vou deixar outro capítulo reservado, só para falar sobre o meu medo de você ter estado em outros corpos e provado outros perfumes, testando novas trilhas sonoras por aí. Mas tudo bem, a vida é assim. Eu direi também como meu estômago fez o favor de vir parar no meu peito, e o coração se abrigar na minha garganta, não me deixando te agradecer por ter me roubado o beijo que a noite toda eu planejei lhe dar.

Bem na hora do tchau, quando você abriu a porta de casa, meio bêbada, e olhou para trás – para mim, só para mim – de novo com seu sorriso de sábado desenhado com covinhas, eu irei mudar o “foi uma noite ótima” por um “você é a pessoa da minha vida. você me salvou de uma existência medíocre e cansativa, e eu vou tentar mudar o seu mundo todos os dias, se você me permite. agora vá dormir, e me deixe continuar sonhando com você pelo resto da noite”. Em alto e bom som.

E se o livro ficar sem final e o texto sem desfecho, por favor não venha me culpar pela falta de talento. É simplesmente o efeito que sua imagem faz em mim. Fico assim, tão idiota, que tem coisas que eu não consigo nem escrever, pensando em você… E se você não gostar disso, pede pro meu coração te ligar um dia desses e se explicar, ué. Se ele tiver uma resposta racional, cuidado, ele estará mentindo.

Tom.

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Da Série: “Cartas Que Nunca Foram Enviadas”

Olá S,

Faz tempo que você me escreveu e eu não respondi antes porque… Bem, porque só agora as palavras certas chegaram nessa minha mente conturbada. O negócio é o seguinte: poucas pessoas me atraem tanto quanto você. Falando, agora, não de uma atração física, mais de uma atração, sei lá, cósmica. Uma vontade louca de estar perto da pessoa, simplesmente porque estar perto dela é fantástico! É animador, é instigante, é contagiante! Você me atraia pela SUA loucura. Pela sua insanidade em me acompanhar nos meus delírios, nas minhas viagens… E você me atrai porque você é linda. Sabe aquele tesão doido de ter alguém por perto? Então. E é por isso que eu te amo, tá vendo? Porque você veio aqui, me disse meia dúzia de palavras e ganhou meu coração. Incendiou minha imaginação e me fez rir com idéias doidas. A gente funcionaria muito bem como irmãos, a gente seria ótimos amigos – inseparáveis e tudo mais -, cunhados e vizinhos que adorariam passar os feriados juntos. Mas eu prefiro a gente como um casal. Porque não somos bons assim, somos ótimos. Somos dois cometas estranhos que se encontraram  e, de repente, decidiram que seria muito mais divertido continuar o caminho juntos. Tipo: “olá, gostei de você.” “pois é!” “que ir atrás de um pouco de diversão comigo?” “por onde?” “pelo mundo.” “por quanto tempo?” “pela noite. pela vida.” “eu não pediria menos…” Nem eu. Pela noite, pela vida.

Sinto falta de você, da sua risada engraçada e do seu perfume enjoativo. Estou voltando, me espere.

O mesmo de sempre, Tom.