sai pra lá, verão

sai pra lá, verão

não vem encher meu coração

da tua falsa promessa

de sorrisos, taças e festas

 

sai pra lá, verão

que eu conheço a tua peça

traz no samba a ilusão

traz na rima a controvérsia

 

sai pra lá, me deixe aqui

na solidão, aquietado

de paz na mente, sorte no tato

que ninguém vive de amor

ninguém vive apaixonado

 

sai pra lá, verão

o dia tá quietinho

até escuto o passarinho

vindo me avisar

verei mais mar com violão

e menos amor no coração

e é assim que o meu verão será.

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let it be

De vez em quando eu penso nela.

De vez em quando a imagem da risada alta invade minha cabeça, demonstrando algum tipo de saudade pelas noites frias que já não são mais reais. De vez em quando o perfume, ora doce ora veneno, me encontra no meio da rua e eu olho pros lados, só pra reafirmar que ela não está mais ali. Não é romântico e tampouco é bonito, só é o desenrolar do jogo. Diversas pessoas passaram por mim e outras eu nunca chegarei a conhecer, mas de todos os dias que me riscam no calendário, de vez em quando tenho vontade de parar de pensar nela e a ver. E contar meus dias, desabafar novas piras. Vontade de ouvir seus novos problemas e os novos corações que ela roubou.

Trocar outros livros. Trocar alguns cigarros.

De vez em quando eu penso nela, assim como Sal pensou em Dean. Assim como diversos outros pensaram, olhando pelo retrovisor do carro, o quão estranho é perder de vista alguém que se ama. Alguém que tem tanto de você. Novas canções e novos poemas virão e se você resolver voltar e não me achar, é porque na verdade eu vou estar ali, na outra grande rota mãe, com um mapa nas mãos, te esperando. Mas a estrada é grande demais e as rodas não param de se sujar de asfalto… Assim como penso nela, penso também que ela não mais existe, e continuo a rodar.

Espero que diferente de Dean, você encontre a pira que te guia. E, por favor, nunca a perca.

01: 27 AM

“Você apaga ela como se assim pudesse apagar tudo que a gente já escreveu, viveu e pensou. Você está errada, mas me deixa feliz ver o quanto você ainda se importa.”

Porque eu me importo também. E sinto saudades, todos os dias. Se for pra apagar algo, por favor, apague isso, pois eu já não vejo outro caminho.

1.000 poemas de amor

pra você

vou escrever

1.000 poemas de amor

antes de morrer

 

vou deixar

de assoviar

de cantar

e reclamar

 

pra você

eu vou dançar

1.000 casamentos

de 1000 sóis e 1000 luas

antes do jantar

 

e vou caminhar

1.000 ruas

e 1.000 céus

feito anjo, ser fiél

 

e me sujar

dessa verdade crua

1.000 vezes

sem cansar

 

das 1.000 pessoas

que você viveu

1.000 formas

penso eu

foram essas

de esbarrar

teu andar no meu

e meu andar

no teu voar

 

meu eu no teu

seu eu, no meu

com o mar teceu

1.000 ondas no cais

1.000 contos fatais

que o vento esqueceu

 

e pra você

eu desenhei

três riscos no ar

três copos no bar

três canções de amar

e essas 1000 palavras de rimar.

(quase)

 

ana r. egídio

o velho mesmo tom no mesmo sofá velho.

Ele rasga a primeira folha do caderno, pacientemente, enquanto arruma o óculos gasto de quem já tem os olhos cansados de tanta merda que já viu até chegar ali. Brinca com a caneta entre os dedos e volta a rabiscar no canto direito da folha ao perguntar em voz alta para o rapaz deitado no sofá rasgado, do outro lado da sala.

– Então, Tom. O que o incomoda?

– Vejamos… A vida – Tom responde acedendo outro cigarro e deitando desconfortavelmente no sofá, tentando manter uma pose de mal amado que não lhe pertencia – Essa de vida do caralho. Isso não incomoda você, também, Carlos?

– Não muito…

– Deveria. Sabe, ou a vida lhe incomoda, ou você não está vivo. É a regra.

– Duvido muito que eu esteja vivo… – Carlos repete para si em voz baixa – Mas seja mais específico, Tom. Hoje. O que lhe incomoda hoje?

– Hoje… Hoje… Hoje me incomoda a falta de resposta. Me incomoda a insônia da ansiedade de um sonho que nem existiu, me incomoda a falta de modéstia de pessoas esquisitas e me incomoda o silêncio dos que ainda pensam. Ela. Ela me incomoda.

– Hmm… Quem é ela?

– Não é ela! – Tom fala alto, levantando-se e brandindo os punhos contra o ar como em qualquer clichê shakesperiano – São elas! Ela é elas! Todas elas! A menina que era fantástica e tinha um grande sorriso e hoje só me lembra cheiro de erva. A outra garota que se mantinha magicamente em minha mente como um surto de saudade e hoje não me altera nem o caminho. São todas elas, com grandes vidas e idéias e sem bosta nenhuma a acrescentar a ninguém, mas que continuam aí, me torrando a porra da vida..

Carlos se ajeita novamente na cadeira enquanto observa Tom andar pelo cômodo atrás de mais cigarros, colocando mais cerveja preta no copo sujo. Suspira, olhando o relógio, e volta o rosto claramente entediado para o garoto em sua frente com pose hipster e sonhos vagos.

– Tom, você já pensou que nenhuma delas é isso?

– Como assim? Diabos, Carlos, como assim?!

– Nenhuma delas é isso que você descreveu. Elas, todas elas, são apenas garotas simples sem nenhuma coisa interessante a oferecer, a não ser a própria vontade de ser e estar e toda essa baboseira que você costuma ouvir por aí. O resto, essa desilusão de armário, foi você que criou. O problema está com você.

Tom parou de se mexer como um alucinado em transe pelo quarto, suspirou fundo e olhou rindo para o analista imaginário que criara.

– Você quer dizer que o problema da minha vida inteira sou eu, é isso?

Carlos, já não mais presente na cadeira no canto da sala e agora inteiramente na mente de Tom, confirma com a cabeça. Tom se senta calmamente, tomando mais um gole de cerveja, e esbraveja rindo.

– Ora porra, mas isso eu já sabia!

Acende outro cigarro com o cigarro que está em sua boca e joga o velho vício para o outro lado do cômodo. Observa, vazio, que onde antes Carlos estava, agora apenas há uma bituca queimando no chão velho.

– Porém, conte-me mais. – suspira, Tom, solitário enfim, outra vez.

dois pássaros estúpidos

Todo final de domingo eu volto para o lugar onde a gente se conheceu, como se em um surto qualquer você pudesse aparecer e salvar minha semana. Salvar minha vida. Em toda a risada sincera procuro seu olhar de desdenho com aquela piscada de “vam’bora que essa gente é chata demais e eu tenho uma surpresa pra você” que só eu conseguia entender e te seguir rumo rua fora, rumo Rio adentro.

E eu fecho e abro a porta, vez a vez, dia a dia, esperando você estar ali parada de pijamas, perguntando o que diabos eu estou fazendo que não do seu lado na cama ou em qualquer lugar pra lá da saudade e bem longe dos dramas deixados em guardanapos de bar.

Tento te encaixar nesses olhos claros que acho por aí, mas me voltam respostas desconexas e eu já cansei de interpretar desejos que não são meus. Eu gosto é dos seus sonhos e se não for para ler os seus desejos, então eu dispenso. Obrigado. Sei que a gente combinou de deixar tudo pelos cantos, levemente arranjado como um romance de contos sem fadas, mas a saudade às vezes aperta e me sobra conversa de tapete com vinhos na caneca e pretzel velho.

Eu queria lhe fazer um grande texto, do tamanho das histórias que eu vou contar para os nossos filhos no sofá. Mas hoje não. Hoje, eu só vou ligar. E você, por favor, venha. Não é mais domingo, eu sei, mas já cansei de esperar nesse turbilhão de eufemismos sem sentido.

Só venha.

Att, Tom.

Attraversiamo

Existe uma época em que você não vai mais conseguir descrever quem é, e no meio dos clichês e dos amigos pré-moldados, você se pergunta alucinadamente onde está a pessoa que você conhecia.

Não há mais amores. Não há mais cadernos preenchidos avidamente. Não há mais talento.

Quando esse dia chega, acompanhado de agosto, você começa a olhar quem você foi: louco beatnik, apaixonado por sotaques e covinhas e inocentemente crente em toda forma humana de vida. Um aventureiro, um profeta, um poeta. Você nunca foi nada disso. Você não é nada disso. Talvez seja preciso olhar para trás, em uma época limpa de influências, para descobrir quem você se tornou – por baixo das regras do mercado.

Será que agora você faz parte do sistema ou o sistema é você?

A verdade, é que somos o que acreditamos. E eu acredito no Tom. Eu acredito em Caio e também em Bukowski. Eu acredito em Harry e eu acredito no Supertramp. Eu acredito em Moriarty, sobretudo, eu acredito em Moriarty.

Do lado B de londres ao Velho Moriarty que uma vez Sal se permitiu escrever; não importa qual seja a mudança que aconteça, desde que ela exista. Um brinde ao comodismo acomodado dos que se acomodaram e a lei máxima que impera: do not sink.